19 de janeiro de 2011

Scirocco - Ventos de esperança...

Há um vento que se ergue na Tunísia, que se adensa, ganha velocidade e percorre o deserto e as cidades, em especial Tunes, a capital. Há um misto de violência e romantismo nas ruas. Por um lado cidadãos, na maioria jovens, que ora protestam, ora abraçam soldados e lhes oferecem flores, e por outro, soldados que ora disparam gás e balas reais, ora hesitam e se envergonham perante os seus irmãos tunisinos.

Este povo está farto da ditadura do presidente Ben Ali, que chegou ao poder há mais de 20 anos pela força de um golpe militar, está farto dos aumentos consecutivos dos preços dos bens de primeira necessidade, está farto de desemprego, está farto de atropelos à sua liberdade de expressão, de prisões arbitrárias, de fraudes eleitorais que dão vitórias de 99,9%, está farto, pronto. Para nós portugueses, parece haver algo de 25 de Abril em tudo isto. Este povo é muçulmano (mais moderado que outros mas muçulmano) e clama por democracia, veio para as ruas e escorraçou o seu presidente para França, preparando-se agora para escorraçar os membros do anterior regime que tentam misturar-se e sair incólumes no governo transitório que se constituiu. Este povo está a conseguir algo, que até há bem pouco tempo era impensável, espalhando inclusive, uma semente que se alastra a nações africanas vizinhas como a Argélia, o Egipto e a Mauritânia.

O Scirocco, é um vento muito quente que sopra do deserto, os tunisinos chamam-lhe Chili. Pelo Norte de África sente-se algo no ar, viaja entre as dunas do deserto, entre os edifícios e sinagogas, e traz o perfume agridoce da esperança, a antecipação da mudança, a adrenalina da revolta, a inspiração da justiça entre os homens. Tomara chegue aqui depressa, que já estamos fartos de tanto inverno. À atenção dos povos…

"Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'." Bob Dylan - Times they are a-changin'

4 comentários:

  1. Opá, deixa lá o Egipto fora disso, faxavôr (pelo menos até 04 fevereiro).
    Abraço
    A

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  2. Aínda me lembro quando visitei a Tunísia, no longínquo 1996 ou 1997. Era considerada, na altura, a Suiça de Àfrica (não, não era por causa das estâncias de neve), exactamente pela civilidade (ou civicidade ou o raio que o parta) dos seus habitantes. Agora, ora toma!, também a velha senhora achava que o povo era sereno até se dar o Abril dos capitães.
    Abraço novamente
    A

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  3. Caro A

    Como tu sabes bem, o civismo (como eu lhe chamo), por vezes, é uma campanha de marketing e uma revolta abafada. Os anfitriões recebem o turista e sonham em ter uma vida como eles, são instruídos e coagidos a esconderem a barraca e a miséria em que vivem e recebem-nos ainda assim com sorrisos abertos. Tu que és um homem viajado já deves ter encontrado "n" locais como esses. Antes do tsunami as águas recuam e tudo parece calmo e tranquilo, até os pássaros se calam, depois "here comes the flood"...Dá-me esperança ver a humanidade, subitamente, a mostrar que o copo já não pode encher mais, é inspirador.

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  4. Õs egipcios vão fazer uma pausa até Fevereiro para o pessoal ver as piramides descansado, não te preocupes ;)

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