Introspectivo como Deus quis, fiquei a pensar na amizade, no que significa e tal, essas coisas, e embora abone a meu favor o rol de telemóveis destruídos e perdidos, e os números de telefone, com eles desaparecidos, recriminei-me por negligenciar o contacto com tanta gente, remorso este que o Facebook, honra lhe seja feita, tem apaziguado de quando em vez. Tive oportunidade de referir a este velho amigo que embora eu não seja pessoa de andar a ligar a toda a gente por dá-cá-aquela-palha (linda expressão portuguesa), lembro-me amiúde (outra) das pessoas de quem gosto, quer as tenha visto ontem ou há 10 anos. Acredito que bons amigos reatam a conversa como se nada fosse, independentemente do tempo que passou desde o último "até logo". É como se perguntássemos "onde é que eu ia?". Ainda assim tal não me serve de desculpa, que fique claro, que eu não sou homem de consciência leve, nunca fui, nem espero que alguma vez venha a ser. É bom saber de quem nos lembramos e gostamos, num limite de tempo razoável, mea culpa, mea maxima culpa.Eu tenho uma natureza tímida, traço que julgo conhecido por quem me está próximo, e não obstante as limitações que daí advêm, granjeei ao longo da minha vida inúmeras amizades que tenho como verdadeiras e baseadas na frontalidade, amor (isso mesmo) e respeito. Procurei sempre explicar aos outros quem eu sou, consciente da responsabilidade que tal exige, em troca. Não estando a ingenuidade nos meus traços mais evidentes, confiei no meu juízo sobre os outros e só por uma vez, que me lembre, senti o sabor amargo do desapontamento, algo que me magoou na exacta proporção da confiança que depositei, isto é, muitíssimo. Tirando a excepção, posso dizer que tenho um grande património como ser humano porque não é tarefa fácil nem de somenos, ser fiel depositário das vicissitudes de tanta e tão boa gente. A amizade é para mim transversal, e tanto pode acontecer com um estranho como um familiar, isto porque ser amigo de um irmão enriquece o ser irmão, e ser amigo de uma paixão, enriquece a relação.
Tudo isto para dizer que, não pretendendo dissertar sobre a amizade como sentimento, longe de querer usurpar o lugar dos poetas no seu esforço hercúleo de versar sobe o indizível, me sinto obrigado a agradecer a partilha que os meus companheiros de estrada me dedicam, a piada fácil, a palmada no ombro, o olhar cúmplice, a história comum mil vezes repetida, e em última análise, a simples e tantas vezes sub-valorizada companhia, o "estar ali", para o que der e vier. Na minha enorme ignorância presumo que a caminhada é solitária, em geral, ninguém faz os nossos passos, por mais perto que esteja, ninguém, creio, faz o nosso último metro...mas é tão mais fácil quando um amigo está à distância de uma mão estendida, quando temos verdadeiros companheiros de viagem. Agora chamem-me lamechas que eu não estou nem aí, cambada de gente de quem gosto.














