Eu lembro-me bem de ti, pequeno e de mão dada comigo a caminho da consulta, a pedir-me colo e eu a empatar, para te fazer homem, sem pressa nenhuma de que crescesses, mas ainda assim preocupado em fazer-te homem. Depois cedia, e lá pegava em ti para a última metade da caminhada. Eu lembro-me de te adormecer, de me agarrares o dedo quando eu pensava que já dormias, de te vestir quando fugiste de mim naquele dia de chuva. Eu lembro-me de te dizer que não te ia fazer mal, só para que parasses de fugir. Pura retórica, nunca te faria mal e tu paraste, e eu cumpri, eu que abominava que tu não me obedecesses, sabendo que bem merecias uma palmadinha, levei-te para casa sem mais conversas e mudei-te a roupa encharcada, as meias, os sapatos, tudo, soube que não querias ir para a escola nesse dia, mas lá foste. Depois cresceste (para ti e para os outros, nunca para mim), fizeste-te homem e viveste intensamente, amaste e foste amado, toda a gente te adorava.
Lembro-me de estar à minha janela e a dizer para mim próprio que devia combinar qualquer coisa cá em casa, de me culpar por não estarmos mais vezes juntos, mas tu estavas numa daquelas idades em que a agenda não chegava para tudo, é compreensível. Liga mais ao teu irmão Filipe, dizia eu, diz-lhe mais sobre quem és, quem somos...mas acho que sempre soubeste.
Isto para dizer que o que me faz ir ao cemitério Zeca, é o facto de acreditar em algo mais do que é visível, é acreditar que ainda nos podemos encontrar e rir, muito depois desta curta passagem. Eu chego ali e vejo o universo, vejo todas aquelas lápides e sinto-me confortável. Eu chego ali e não vejo mortos, não vejo passado, vejo presente e futuro, vejo vidas, milhões de vidas como as nossas, sinto que é ténue o que nos separa.
E para além de tudo nada sei, estou tão ignorante como estava quando te vi nascer, estamos todos. Até desconfio que não há aqui uma alma que saiba realmente alguma coisa sobre as almas. Aqui tenta-se acreditar, e às vezes acredita-se, assim vivemos e um dia morremos, de amor, por amor...


Há, com certeza, alguma coisa para além disto Fil! Tem de haver... isto é apenas uma passagem. Pelo menos também acredito nisso. E estou confiante que um dia me vou encontrar com algumas pessoas que me são queridas e que já não estão comigo aqui neste espaço ou, pelo menos, no modo como estivemos antes. Só pode!
ResponderEliminarSe não fosse assim há uma serie de coisas que não faziam sentido, não é?
ibd
O truque dele era agarrar-nos a orelha (e não o dedo), lembras-te?
ResponderEliminarA
Eu sei que estes posts são um pouco pesados para os meus caros companheiros de blog e por isso peço desculpa. Mas é algo que eu preciso fazer de quando em vez, faz parte da minha natureza enfrentar os meus fantasmas falando abertamente sobre as coisas. Acreditem que mesmo assim, há muito coisa que não consigo por cá para fora, mas essas ficam comigo. Da tempestade vem a bonança e a vida é um equilibrio de momentos e humores. Haja fé!!!
ResponderEliminarCaro A, tens razão, a maior parte das vezes era a orelha :)
ResponderEliminarObrigado por essa lembrança, arrancaste-me um sorriso, nada mau, nada mau. Nós cá estamos para nos ir ajudando a lembrar, sempre com espirito positivo.
ibd, a pergunta que deixas no final é precisamente a que vale um milhão, não sei, sinceramente não sei cara amiga.