13 de fevereiro de 2011

Acreditar

Duas rosas, uma minha, outra do teu irmão, é assim que eu tenho feito nos últimos 3 anos. Para mim é muito mais do que entrar no cemitério, virar à esquerda passando pela campa do Belenenses (para Artur José Pereira, Matateu e Pepe), virar à direita onde diz rua 14 e virar na 2.ª à esquerda depois disso, para mim é mais do que andar a escolher o vaso onde por as flores, chocalhar aquela bola da Nossa Senhora de Fátima que parece ganhar vida ou constatar que o 5.181 ainda lá está entre o velho Eusébio e o Laureano, se não me falha a memória. Para mim, na verdade, é como desafiar a minha fé, a minha crença.


Isto porque se não há nada para além disto mano, que faço eu ali plantado a olhar para uma laje de mármore com a tua fotografia? Que culto é este que faz o teu pai andar e andar quilómetros quase todos os dias para deixar a tua sepultura mais cheia de pedrinhas brancas, mais brilhante e mais cheia de flores que todas as outras? Porque se não há nada, que andamos nós a fazer senão apenas chorar o que tu foste?

Eu lembro-me bem de ti, pequeno e de mão dada comigo a caminho da consulta, a pedir-me colo e eu a empatar, para te fazer homem, sem pressa nenhuma de que crescesses, mas ainda assim preocupado em fazer-te homem. Depois cedia, e lá pegava em ti para a última metade da caminhada. Eu lembro-me de te adormecer, de me agarrares o dedo quando eu pensava que já dormias, de te vestir quando fugiste de mim naquele dia de chuva. Eu lembro-me de te dizer que não te ia fazer mal, só para que parasses de fugir. Pura retórica, nunca te faria mal e tu paraste, e eu cumpri, eu que abominava que tu não me obedecesses, sabendo que bem merecias uma palmadinha, levei-te para casa sem mais conversas e mudei-te a roupa encharcada, as meias, os sapatos, tudo, soube que não querias ir para a escola nesse dia, mas lá foste. Depois cresceste (para ti e para os outros, nunca para mim), fizeste-te homem e viveste intensamente, amaste e foste amado, toda a gente te adorava.

Lembro-me de estar à minha janela e a dizer para mim próprio que devia combinar qualquer coisa cá em casa, de me culpar por não estarmos mais vezes juntos, mas tu estavas numa daquelas idades em que a agenda não chegava para tudo, é compreensível. Liga mais ao teu irmão Filipe, dizia eu, diz-lhe mais sobre quem és, quem somos...mas acho que sempre soubeste.


Isto para dizer que o que me faz ir ao cemitério Zeca, é o facto de acreditar em algo mais do que é visível, é acreditar que ainda nos podemos encontrar e rir, muito depois desta curta passagem. Eu chego ali e vejo o universo, vejo todas aquelas lápides e sinto-me confortável. Eu chego ali e não vejo mortos, não vejo passado, vejo presente e futuro, vejo vidas, milhões de vidas como as nossas, sinto que é ténue o que nos separa.

E para além de tudo nada sei, estou tão ignorante como estava quando te vi nascer, estamos todos. Até desconfio que não há aqui uma alma que saiba realmente alguma coisa sobre as almas. Aqui tenta-se acreditar, e às vezes acredita-se, assim vivemos e um dia morremos, de amor, por amor...

4 comentários:

  1. Há, com certeza, alguma coisa para além disto Fil! Tem de haver... isto é apenas uma passagem. Pelo menos também acredito nisso. E estou confiante que um dia me vou encontrar com algumas pessoas que me são queridas e que já não estão comigo aqui neste espaço ou, pelo menos, no modo como estivemos antes. Só pode!

    Se não fosse assim há uma serie de coisas que não faziam sentido, não é?
    ibd

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  2. O truque dele era agarrar-nos a orelha (e não o dedo), lembras-te?
    A

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  3. Eu sei que estes posts são um pouco pesados para os meus caros companheiros de blog e por isso peço desculpa. Mas é algo que eu preciso fazer de quando em vez, faz parte da minha natureza enfrentar os meus fantasmas falando abertamente sobre as coisas. Acreditem que mesmo assim, há muito coisa que não consigo por cá para fora, mas essas ficam comigo. Da tempestade vem a bonança e a vida é um equilibrio de momentos e humores. Haja fé!!!

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  4. Caro A, tens razão, a maior parte das vezes era a orelha :)

    Obrigado por essa lembrança, arrancaste-me um sorriso, nada mau, nada mau. Nós cá estamos para nos ir ajudando a lembrar, sempre com espirito positivo.

    ibd, a pergunta que deixas no final é precisamente a que vale um milhão, não sei, sinceramente não sei cara amiga.

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