Daqui nasce a questão do que é estar com alguém. Na realidade e seguindo esta linha, calculo que estar, é a presença física e sobretudo a possibilidade da presença física futura, porque será assim, na maior parte dos casos que vivemos com a nossa família, amigos e conhecidos. Quantas vezes, em idade adulta e em termos relativos estamos efectivamente com as pessoas de quem gostamos? Imaginem uma semana que vale 168 horas e pensem nas 3, 4 horas que, nessa semana, por ocasião de um almoço ou um aniversário estão com os vossos pais. Estamos a falar de 2% da vossa semana (esqueçam lá as horas de sono que não é essa a questão). Dois por cento!!! É como se os tivéssemos como garantidos, algo que não nos impele a correr para eles, de hora a hora. Muitas semanas passavam em que eu e tu, meu irmão, nos víamos ainda menos, lembras-te? Mas isso nunca interessou realmente, o que levanta a pergunta:
E se o que nos liga são afinal laços invisíveis e incompreensíveis que vão muito para além das “senhas de presença”? Acham que 2, 3 ou mesmo 20% (o que dava 9 horas por semana) são uma percentagem aceitável na nossa vida para estarmos com as pessoas que nos são mais importantes? Qual é a percentagem aceitável? Existe? Pensemos nisto.
É claro que tem de haver mais qualquer coisa. É claro que somos mais do que tudo isso. É que algures entre a presença física e a possibilidade de a ela recorrermos, de vez em quando, está toda uma miríade de experiências passadas, empatias, pensamentos, dores e expectativas que herdamos e vivemos como se fossem nossas. Em suma, vivemos muito mais a vida dos “nossos” e mesmo de outros do que suspeitamos. Calma então neste ponto, não nos enganemos, nós vivemos intensamente a vida dos outros, tomamo-la como nossa, encarnamo-la e assim se fazem os nossos laços, o nosso estar. O que lhes acontece, acontece-nos a nós, com maior ou menor intensidade.
Assim chego ao que me trouxe aqui. Quero falar-te da minha saudade imensa, da minha dor por não estares e por não poderes estar, da impossibilidade de sair e correr para ti. Quero dizer-te ainda que tudo me faz lembrar de ti, um rapaz parecido na rua, na praia, uma gargalhada, um local ou uma memória inesperada. Mas quero que saibas que agora isso não interessa, não adianta. Ausente ou presente, não importa...Amamos quem nos ama, lembramos quem nos lembra, vivemos enquanto estivermos ou enquanto nos fizerem estar. E tu estás, acredita, tu estás sempre tão presente. A vida é um grande mistério e quando for a ocasião, também nós estaremos na memória de alguém, eterna e incompreensivelmente. Assim te vejo, vivo e eterno. Assim te lembro, hoje...desta vez, sem lágrimas.
Teste 1, 2... 1, 2. Ssssom... Ssssom...
ResponderEliminarOuve-se bem? Alô?
Tio Bouça!
Grande amigo, sê bem-vindo. Agora sim, o blog está a internacionalizar-se ;)
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