Hoje apanhei um susto no trânsito. Coisa pouca, vista à distância, mas intensa no momento. Conhecem aquelas situações em que circulamos como zombies matinais, em piloto automático, numa estrada que fazemos diariamente a caminho do emprego? Pois…Sabemos o percurso de cor, onde está a lomba, onde travar, onde acelerar, a música toca alta e nós lá vamos, velocidade de cruzeiro, faixa da esquerda a empurrar o tipo da frente, confiantes no nosso casulo de uma tonelada e qualquer coisa. De repente (acho que o John Mayer tinha acabado de de dizer “Who says i can’t get stoned?”), o tipo da frente trava um pouco e nós ainda menos porque convenhamos, há gente que trava por tudo e por nada. Depois, apercebemo-nos que trava a fundo como um louco, com direito a quatro-piscas e tudo (desculpe lá o vernáculo, Eng.º Catatau). Nesta fase, já eu estou acordado e bem acordado a travar ainda mais a fundo e por um segundo, vá lá, uma décima de segundo, penso que não vou travar a tempo e me vou enfiar pela traseira do tipo a dentro, passe a expressão…A verdade é que passo dos cento e tal Km.s/hora até zero com surpreendente sucesso para descobrir que afinal, estava mesmo tudo parado num sitio em que não era suposto estar ninguém parado. A coisa termina com um momento final de angústia em que olho para o retrovisor e rezo para que o gajo que aí vem, não tenha vivido esta mesma experiência para agora se estampar ingloriamente na minha traseira (aqui resisto corajosamente a uma piada fácil sobre Sócrates e o seu mais recente feito politico).
Toda esta prosa, é claro, resume pouco mais que uns segundos (um dos milagres da escrita), mas francamente, faz pouco jus ao momento vivido…Muitos se identificarão com o relatado, mas poucos o saberão avaliar, eu inclusive. É que algures entre a caricatura e a realidade, algures entre um segundo e o outro, espreita a arbitrariedade das nossas vidas, o escrutínio dos deuses ou o destino puro e simples…é que algures num dia de trabalho, em tudo igual aos outros, constatamos a excelência fria e mecânica das sacanas das pastilhas dos travões, aquelas que o meu pai mudou ainda à coisa de uma semana…Carpe Diem!
"Cinco trabalhadores morrem em acidente brutal na A4" in Diário de Noticias, 27/01/2010
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