5 de agosto de 2011

A CMVM para tótós...

Surge este assunto na sequência do post anterior e de uma conversa que tinha ontem com o "A" antes de um excelente e saudável confronto de ténis. Na verdade, é um tema que me tem suscitado dúvidas há vários anos e prende-se com o verdadeiro papel da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e muito especialmente com o seu âmbito, abrangência e capacidade de actuação. Assim, retirei do site oficial que "A CMVM é um organismo público independente, com autonomia administrativa e financeira". Afirmam ainda que a sua actuação tem vertentes de supervisão, regulação, cooperação e promoção do mercado e elegem uma prioridade: a protecção dos investidores. A supervisão que exercem consiste, entre outras coisas, no acompanhamento permanente da actuação das pessoas ou entidades que intervêm no mercado de capitais com o objectivo de detectar actos ilícitos, nomeadamente na negociação em bolsa, na fiscalização do cumprimento de regras e na detecção de infracções e respectiva punição dos infractores com aplicação de coimas.

Ora, a questão que aqui me oferece dúvidas é a muitas vezes argumentada capa de legalidade e transparência que a CMVM parece conferir a todas as entidades cotadas e suas operações. Já não falo da falibildade humana e de qualquer instituição avaliadora, que sabemos ser frequente (vide exemplo das agências de rating e as falências nos EUA), mas antes de um erro de interpretação (meu e de muita gente) quanto à verdadeira missão e área de actuação daquela comissão. Como eu não imagino a CMVM como um conjunto de fiscais e inspectores internos e externos, calculo que quando dizem supervisionar actos ilicitos e infracções, estes se restringem a normas a cumprir conforme os regulamentos da bolsa. Quero dizer com isto que não os estou a ver a fazer de "policias" no sentido de auditar todas as empresas e seus resultados ou de saberem se há capitais ilicitos, se há transacções suspeitas de branqueamento, etc (imaginem a estrutura gigantesca que ali estaria). Resumindo, não o fazem porque não querem ou porque não são capazes, mas porque simplesmente estas matérias policiais ou fiscais não são da sua competência. Podemos nós exigir à CMVM o garante da legalidade e transparência de qualquer sociedade cotada na bolsa e poderá a CMVM ser arremessada como argumento de tais virtudes em qualquer conversa que envolva mais ou menos desconfianças? Eu penso que não, mas gostava imenso de obter mais esclarecimentos sobre isto. Eu, quando não sei, admito e gosto de saber, por isso abro o debate...

Nota: A colaboração de Xô Leite sobre este tema era preciosa, mas não há obrigação nem pressa...
Nota2 (actualização): O que eu gostava de conhecer era um pouco mais sobre o funcionamento da CMVM, o que faz, o que supervisiona exactamente, como faz e quais os limites e obstáculos à sua actuação. Como nunca trabalhei lá e conheço pouco sobre o mundo da bolsa queria perceber o que é este organismo público e independente e até que ponto pode certificar a actividade de uma empresa. Daí a questão formulada.


16 comentários:

  1. Caro Fil,

    Portanto, "A CMVM é um organismo público independente, com autonomia administrativa e financeira(...)a sua actuação tem vertentes de supervisão, regulação, cooperação e promoção do mercado (...) A supervisão (...) consiste, entre outras coisas, no acompanhamento permanente da actuação das pessoas ou entidades que intervêm no mercado de capitais com o objectivo de detectar actos ilícitos, nomeadamente na negociação em bolsa, na fiscalização do cumprimento de regras e na detecção de infracções e respectiva punição dos infractores com aplicação de coimas."

    Quanto a mim e à questão de ontem, estou esclarecido.
    Se tu não estás, enfim, não sei o que é preciso mais.

    Deixo-te uma definição que talvez te interesse:

    Significado de Céptico
    adj. e s.m. Que ou aquele que não crê, que duvida de tudo; descrente; desconfiado.
    S.m. Partidário do cepticismo. (Diz-se de certos filósofos cujo dogma era duvidar de tudo.)

    Abraço
    A

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  2. Caro A. Ou só leste um parágrafo ou se não te conhecesse diria que tens problemas ao nivel do entendimento de textos (que nem sempre são faceis de escrever quando se quer falar de temas complexos de forma simples)...

    Assim, retribuo porque também sei googlar:

    entender |ê| - Conjugar
    (latim intendo, -ere, estender, pretender, estar atento)
    Apossar-se do sentido de (o que ouvimos ou lemos).
    Compreender-se (a si mesmo).

    3 dicas de graça para melhorares o entendimento das coisas (e compreenderes-te a ti mesmo), sem google e da minha experiência de vida:
    - Ter sentido critico (pensa pela tua cabeça e questiona-te);
    - Ter humildade (se não sabes, informa-te e pergunta);
    - Não ter preconceitos (procura primeiro o sentido do que te é comunicado antes de procurares segundos sentidos);

    Outros mais existem, mas estes já te bastariam para ler os parágrafos postados sem que te arrogasses de estar completamente esclarecido. Acredita que eu não estou. Ora faz lá o favor de lêr tudo com atenção e depois falamos novamente.

    FIL

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  3. Ah, e eu não me choco com a caricatura do cepticismo, especialmente se for antagónica à cegueira voluntária e crença irracional em tudo o que se ouve.

    Nota: Confesso que estava à espera de uma contribuição mais inteligente e menos pessoalizada (o tema não é sobre cepticos, crentes, eu, tu ou o Benfica, se é esse o teu problema). Acho que as minhas dúvida estão relativamente bem explicadas, ou não?

    FIL

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  4. O problema é que este género de questões só te assaltam (e a muitos) quando é o benfica que está envolvido. Nunca te vi questionares a CMVM quando outros negócios se fizeram.

    É apenas isto que quis dizer. Lamento se o não entendeste.

    Sim, tenho alguns problemas ao nível de entendimento de textos, ainda mais quando eles são feitos a uma luz parcial.

    E já agora, as minhas desculpas por não poder contribuir com mais inteligência no teu blog. Mas isso tem rápida resolução...
    A
    P.S. - Para um melhor entendimento do meu primeiro texto:
    Significado de Brincar
    v. int.
    1. jogar, divertir-se.
    2. dizer piadas.
    3. não levar as coisas a sério.

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  5. Ainda assim, vou acrescentar isto ao post para tentar ser mais claro:

    O que eu gostava de conhecer era um pouco mais sobre o funcionamento da CMVM, o que faz, o que supervisiona exactamente, como faz e quais os limites e obstáculos à sua actuação. Como nunca trabalhei lá e conheço pouco sobre o mundo da bolsa queria perceber o que é este organismo público e independente e até que ponto pode certificar a actividade de uma empresa. Daí a questão formulada.

    FIL

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  6. Ah, o Benfica era mesmo o teu problema ;)

    Não há parcialidade, tu é que antes de ler pensas "parcialidade". A questão vem na sequência do post anterior sim, e porque falámos disso ainda ontem, é uma questão de timing, só isso (assunto mais actual era impossivel). Ponha-se o exp do Sporting com Liedson, pronto, pode ser? De resto achei que seria útil sabermos mais sobre o tema em vez de discutir algo de que só temos impressões. Uma das vantagens de ter um blog é que podemos aprender todos ao mesmo tempo com o contributo de gente mais esclarecida em determinado assunto. Se eu achasse que os objectivos da CMVM (que tu copiaste para o teu comentário) esclareciam tudo tinha parado o post logo por ali, não achas? Eu conheço-te e percebi a bicada, mas é por te conhecer que esperava um pouco mais de paciência na leitura e análise.

    Para ti parece que é tudo um caso de Benfica ou nada!!! Mas não é, nem sequer se fala de bola caramba...De resto, brinca, goza e bate à vontade que fazes cá falta pá, amigos na mesma e como sempre ;) Ah, e bom fds...

    FIL

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  7. De resto este blog cada vez se parece mais com uma casa de familia, há de tudo eheheh (e só nós é q comentamos agora?).

    Ó gente iluminada, iluminai-me, este tema é muito interessante, certo? não? Não pensem que é facil manter isto activo e vivo companheiros ;)

    FIL

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  8. "Como eu não imagino a CMVM como um conjunto de fiscais e inspectores internos e externos, calculo que quando dizem supervisionar actos ilicitos e infracções, estes se restringem a normas a cumprir conforme os regulamentos da bolsa. Quero dizer com isto que não os estou a ver a fazer de "policias" no sentido de auditar todas as empresas e seus resultados ou de saberem se há capitais ilicitos, se há transacções suspeitas de branqueamento, etc (imaginem a estrutura gigantesca que ali estaria). Resumindo, não o fazem porque não querem ou porque não são capazes, mas porque simplesmente estas matérias policiais ou fiscais não são da sua competência."

    Nem mais. A CMVM garante o cumprimento das regras do mercado de capitais, não mais do que isso. Uma das regras é manter os accionistas informados sobre factos relevantes que condicionem a avaliação das empresas. No caso das SADs, por exemplo, importa saber entre outras coisas os valores envolvidos em compras e vendas de jogadores. Também era bom saber os prazos de pagamento, etc, mas isso não é divulgado porque já entra em aspectos negociais que se mantêm reservados.

    Ora, no caso em concreto, o Benfica anuncia que vende o Roberto por 5,6 M. A notícia causa surpresa, naturalmente. Serão contas malucas que entram com os salários futuros e coisas do género? Vamos lá esclarecer, venha novo comunicado. E o Benfica diz que não senhor, foi guita mesmo e a pagar faseadamente por 2 entidades diferentes. O próprio clube e uma sociedade sua accionista. Do ponto de vista da CMVM tudo bem, está esclarecido. Não lhes compete ir investigar se é verdade ou mentira. Mas se se verificar que a informação era falsa, aí actuam e multam o prevaricador (até 5 milhões de euros, acho).

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  9. Thank God Xô Leite, é precisamente isso que eu queria esclarecer, apenas isso. Eu achava que me tinha explicado bem. Pelo que dizes, o âmbito da actuação da CMVM tem as suas naturais limitações de competência o que vem de encontro ao que eu pensava, não é uma questão de não fazerem isto ou aquilo, ou não supervisionarem aquilo ou aquele outro, estão simplesmente circunspectos à sua área de actuação que não cobre, obviamente, investigações mais aprofundadas e intrusivas (os prazos de pagamento até seriam coisas em que poderia haver interesse mas entendo). O próprio facto de falarem em coimas e não acções judiciais já deixava antever que não se manifestam em matérias de índole criminal (salvaguardando eventuais colaborações solicitadas pelas respectivas entidades).

    Moral da história, daí a poder argumentar-se que a CMVM é o garante da transparência e legalidade em qualquer empresa é simplesmente exigir o que não lhes é exigível. Concordo que seja uma mais-valia aqui e ali mas não é um selo certificado, sendo isto válido para qualquer empresa cotada em bolsa. Caro A, estamos mais esclarecidos? Isto não tem que ver com Sporting nem Benfica, apenas saber como funcionam as coisas. Obrigado XÔ Leite, foi uma verdadeira explicação para Tótós...Isto aqui é uma fonte de conhecimento carago ;)

    Nota: Espero q qualquer dia possamos falar sobre isto pessoalmente, porque é interessante. Confesso que nunca tinha pensado na questão de ser uma entidade pública, por exp.

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  10. A CMVM também pode abrir processos de investigação, mas para isso tem que ter indícios fortes de crime ou ilegalidade. Vide caso BCP, por exemplo, na sequência de denúncias de investidores.

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  11. Pois, o Berardo estava a arder e ficou f*****. O que eu acho mais curioso em relação ao BCP foram os empréstimos da CGD para aquisição de acções daquele banco. Vale a pena ter um banco "estatal" assim ;)

    FIL

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  12. A propósito:

    "A CMVM notificou esta quinta-feira o Sporting para prestar explicações adicionais sobre a transferência de Jeffren, de acordo com o que adianta o "Público".
    O pedido surge na sequência das notícias que circulam em Espanha de que o Barcelona terá ficado com uma opção de recompra."

    Eu acho bem que estes esclarecimentos sejam pedidos, neste particular, acho que os clubes têm que melhorar bastante na comunicação dos factos.

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  13. Muito dentro deste contexto da transparência, ouvi o Rui Santos (pessoa que desperta em mim um forte instinto de zapping) referindo-se a uma ideia (uau!) que ele tinha lançado há algum tempo. Chama-se "Casa das Transferências" e parece-me, pelo menos, passivel de discussão(uau novamente!).

    Sobre isto, queixava-se assim em Maio passado:
    "Como sabem aqueles que acompanham a minha intervenção pública, há muito que venho pugnando pela criação de uma Casa das Transferências, com a obrigatoriedade de todos os pormenores relativos às transferências ficarem devidamente registados. Esta solução passa pelo envolvimento político e pela vontade dos actores do futebol. No 'plano ideológico', há quatro anos que ando, literalmente, com a Casa... às costas. Numa audição parlamentar, na Assembleia da República, ouvi Laurentino Dias dizer que essa seria a sua grande prioridade, a par da implementação do novo Regime Jurídico das Federações. Os principais parceiros do Futebol, entre os quais se achava a Liga, chegaram a ter pronto para ser assinado um protocolo que colocava todas as partes de acordo em relação a essa necessidade. Quatro anos depois, nada. A pergunta é óbvia: porquê?"

    É claro que há alguma ingenuidade forçada na sua pergunta, alguma retórica. Parece óbvio (até para este digno representante da intervenção pública) que esta transparência toda provocaria muita comichão a muita gente e não estou a ver os "parceiros do futebol", sejam eles quais forem, a forçarem alguns clubes, nomeadamente os grandes, a adoptar tais regras. Mas lá está, porque não a CMVM, organismo independente e que diz ter como prioridade a defesa dos investidores? Defende-os até que ponto, se nem os informa dos pormenores de uma transferência (como se o prazo e valor de prestações não fossem elementos importantes para a decisão de investimento a curto ou médio longo prazo, por exemplo)? É uma questão de limitação de competências ou falta de vontade?

    Nota: Ontem estive à conversa com dois ex-jogadores de futebol (um do Benfica e outro do Porto). Falou-se bastante de assuntos extra-futebol, do caso Roberto claro, e de outros mais antigos. Confesso-vos que a visão destes dois ex-profissionais me deixou ainda mais desanimado como adepto. A podridão que parece grassar no futebol é assustadora e parece ser conhecida por quem por lá passou e ainda por lá anda, mesmo que indirectamente. Qualquer dia começo mesmo a dedicar-me ao ping-pong ou ao ténis, tenho´é que conseguir...

    FIL

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  14. Epá, ouvi na rádio enquanto fazia a barba, calma pá. Ninguém deve gostar menos do gajo que eu...

    FIL

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