Estive na praia nos últimos 4 dias. Ponto assente, ainda não são férias, só um fim-de-semana prolongado que eu decidi estender por mais 2 dias (já percebem a necessidade de o explicar mais à frente). Olho para o extenso areal da Costa da Caparica e vejo as pessoas aparentemente felizes, calmas, sozinhas, com companheiros, família ou filhos. Vejo-as ali e sinto paz, calma, alegria, enfim, sinto boas vibrações, de um modo geral, vejo um povo que dá cartas e ensina aos outros a gozar o Sol, o Mar, o petisco, o marisco, a sardinha, a imperial, a partilha pois, as pequenas coisas tão próprias deste território que nos aliviam da espécie de terror que nos assola numa 2.ª feira de trabalho.
Sempre achei graça às piadas dos portugueses sobre as férias dos outros. Brincamos que alguém está sempre de férias, mas na verdade é como se temessemos que tenham mais férias que nós, mandamos uma “boca” ao felizardo, meio a sério, meio a brincar, nem maldosa, nem inocente, o que é tão contraditório como intrinsecamente português. Já alguém sentiu uma espécie de culpa quando pede ou vai de férias a dada altura? Eu já. Nós portugueses estamos sempre preocupados em mostrar que trabalhamos muito (e até pode ser verdade), mas na realidade sonhamos com uma pausa que não é mais que um direito ratificado em contrato, tão inevitável como as horas de trabalho e a remuneração que lhe corresponde. Sonhamos com algo que faz parte de nós e repito-me, o Sol, o Mar, o petisco, o marisco, a sardinha, a imperial, a partilha orgulhosa de tudo isto e que exporta mais como imagem antifriã do que todos os nossos embaixadores juntos.
Li um artigo recente sobre um inglês que vive em Portugal há mais de 20 anos e escreveu um livro sobre nós (googlem se quiserem). Parece que até tem uma imagem positiva, simpática, empática, e que às páginas tantas se sai com algo do género: se os portugueses se querem comparar com os padrões ultra-eficientes dos alemães e nórdicos em geral, têm que estar preparados para começar a trabalhar às 8h, acabarem às 18h e estarem na cama às 21h. Termina dizendo que se assim for, se vai embora daqui. Enaltece ainda algo de que todos falamos mas que só é valorizado lá fora, o tipico “desenrascanço”, a capacidade inventiva, a coragem quando não vemos saída.
Que povo é este? Tão contido e polido por vezes, que parece dar a ares de mais europeu do que os europeus, que parece sofrer por ser ele próprio. Quem elegemos nós para nos governar? Quem parece sofrer destes complexos em doses maiores do que nós, que os elegemos? A que aspiramos? Porque fingimos estar ao telémovel quando estamos sozinhos, porque não assumimos esta vocação para sabermos receber, falar a lingua dos outros nem que seja quando um japonês nos pergunta pelo eléctrico para a Graça. Quem nos ensinou a ser assim, tristonhos e envergonhados de querer gozar a vida como só nós sabemos (admirando os brasileiros por o fazerem melhor que nós)?
Milhares de perguntas deste género teria eu mas confesso-vos que poucas ou nenhumas respostas tenho, ou não fosse eu por condição, profunda, orgullhosa e convictamente português…

Caramba, sempre de férias!
ResponderEliminarLOL, confesso que estava à espera dessa.
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