4 de maio de 2011

A Troika, uma fábula portuguesa...

Ouvi na rádio que Troika, é uma palavra de origem russa que descrevia uma carruagem ou grande trenó puxado por três cavalos. Sendo muito veloz, obrigava a uma disciplina particular entre os animais: Enquanto o do meio ía a trote e liderava, os outros dois, emparelhavam e galopavam.


Esclarecido que fiquei sobre a palavra da moda, imaginei uma história, uma fábula:

Era uma vez um trenó atolado, uma troika imobilizada e à beira do congelamento numa imensa estepe russa. O desgraçado trenó chamava-se Portugal e o seu destino encontrava-se nas mãos, melhor, nas rédeas, de 3 cavalos, Sócrates, Passos e FMI, de suas graças. Chegado a tal aflição e maldizendo os que agora se impunham como única salvação, restava-lhe apenas saber quem iria a par e quem iria a comandar.

Sócrates era mula batida e sabida. Vaidosa como ninguém, sempre se lhe conhecera a tendência para a gabarolice e a mentira (mentia aliás, com todos os dentes que tinha, os mesmos que o ditado dizia para não se olharem). Liderava a manada com altivez, puxava pelo trenó com orgulho desmedido, mas às cegas, ignorava os sinais de alerta na estrada. Para ele era "sempre em frente é que é caminho", "eu é que sei", estava sempre tudo controlado, "tudo porreiro", relinchava inebriado. Debalde, já se vê, foi este o asno que nos atolou e nos deixou entregues ao destino, foi ele que já sem forças, forçou o desfecho.

Dos equídeos presentes, Passos era o que tinha menor rodagem. Tinha aquele ar escovadinho e lustroso de Sócrates, mas nunca se lhe conheceu vontade para grandes cargas, era uma daquelas pilecas de quem pouco se esperava e a quem pouco se lhe augurava. Ainda assim, honra lhe seja feita, lá aguentava ao lado do FMI, partilhando o galope e a descrença na mula decisora. Ensaiava um protesto de quando em vez, mas segurava-se nas patas e nas ferraduras, adivinhando a oportunidade que lhe caía do céu, bendito fosse Pégaso.

O FMI era o mais velho dos quadrúpedes, já andava nisto há muito tempo. Experiente e manhoso limitava-se a acompanhar a cegueira do burro da frente sem um protesto, isto enquanto lançava olhares condescendentes para o do lado. O que pensava guardava para si. Sócrates e Passos que tirassem o cavalinho da chuva, porque mais tarde ou mais cedo seria ele a liderar a parelha, tão certo como a égua que o pariu. Aliás, já não era a primeira nem a segunda vez que lhe acontecia semelhante coisa, o trenó era o mesmo, só os burros é que mudavam...Este equídeo estava habituado a salvar trenós e sabia por experiência, que as rações lhe chegariam a triplicar...

O FMI tinha razão, chegou-se à frente com familiaridade e resfolegou em antecipação, encheu as narinas de ar fresco, e num relance à direita e à esquerda relinchou: Agora aguentem-se seus asnos!


Fim

9 comentários:

  1. A questão é: Quando é que nós, do trenó, deixámos os cavalos ditar o caminho da coisa? Quando é que soltamos as rédeas dos animais?
    E quem deixa cavalos mandar nisto é o quê?...

    Tio Bouça

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  2. Tal como eu já tinha dito, há uns posts atrás, o Passos Coelho é uma BESTA! Ao Zézinho, já não há adjectivos para o qualificar...

    Gostei da fábula, pena que o final seja tão triste e real...

    ibd

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  3. "Agora aguentem-se, seus asnos!" resume todo o processo na perfeição. Os asnos somos nós.

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  4. Os do trenó têm um instrumento que parece insuficiente chamado voto. Nuns casos, nem sequer o usam, não o exercem, noutros casos, onde eu me incluo, exercem-no e tentam escolher o melhor cavalo possivel. A questão é, no entanto, mais profunda. A questão é que quando vamos escolher o cavalo, só estão disponiveis pilecas (o contexto actual é elucidativo) e nessa hora, votar em branco e adiar a viagem não serve de nada, a viagem tem que ser feita, dura 4 anos e algum asno vai puxar o trenó, quer queiramos quer não.

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  5. Como cidadão livre e a viver numa democracia, ocorrem-me 3 ou 4 formas para tentar ser producente:

    1 - Exercicio de direito de voto, sob quaisquer circunstâncias; 2 - Exercicio do direito de participação, envovendo-me activamente em acções politicas e/ou sociais; 3 - Exercicio do direito de manifestação, assim concorde com o protesto; 4 - Exercicio do direito de opinião, como pensador livre;

    Outras existirão certamente (agradeço a vossa colaboração), mas focando-me nestes, auto-analiso-me e sugiro-vos o mesmo exercicio:

    1 -O direito de voto eu faço questão de exercer, mesmo votando branco ou nulo (voto que, em minha opinião, devia ter uma consequência evidente e dignidade própria, muito para além da simples abstenção). Sou radical quando opino que de uma maneira geral, todos deviam ser obrigados a votar, como no Brasil; 2 - Na participação politica penitencio-me, confesso ter uma personalidade pouco dada a associações (não andei em escuteiros, nem participei em associações de estudantes, por exp.). Talvez devesse ter participado num partido para ter conhecimento próprio, mas conheço de perto quem lá andou e fiquei com uma opinião muito negativa do que por lá se passa. Na participação social procuro contribuir para algumas causas, especialmente próximas, como as de colegas meus com problemas. Contribuo mas participo pouco, confesso e mais uma vez me penitencio; 3 - Manifestei-me duas vezes em pouco mais de um ano, foram situações únicas na minha vida. Por principio era contra mas reconheço que há alturas para tudo. Há aí mtos moralistas quanto a esta questão (e há opiniões válidas também, como não produzir quando isso é necessário) mas percebi também que fazer greve exige sacrificios como não receber o salário nesse dia, o que não é coisa menor para ninguém e não o foi para mim. a última foi a um Sábado e não partidária, situação com a qual me identifiquei bastante; 4 - O direito de opinião eu exerço quase compulsivamente, não me tenho como opinion-maker nem pretendo sê-lo, mas acho que este é um dos direitos que mais nos faz crescer como seres-humanos. Escrevo num blog e também por esta via opino diáriamente, pratico-o religiosamente e gosto muito de pensar pela minha cabeça.

    Na sequência de tudo isto e em especial do último ponto, peço-vos que continuem a opinar meus caros, fica aqui o meu contributo.

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  6. J'Accuse!
    O povo de ser manso;
    O governo de ser tanso!
    A oposição de ser frouxa;
    O presidente de ser trouxa!
    Às armas, companheiros,
    Que isto agora só vai assim!
    Prá rua, com os trambiqueiros,
    Já não fazem mais pouco de mim!
    Abraço
    A

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  7. Atrevo-me a dizer.
    Desde que a cenoura do Benfica, árbitros corruptos e devaneios sexuais do Pinto DC existam nós, povo mais que burro, não olhamos para mais nada, não queremos saber de mais nada, não nos interessamos por mais nada.
    "Portugal à beira da banca rota" mas é a notícia de que o SLB foi roubado ou que o Pinto DC jantou com um fulano qualquer, que é tema de conversa , manchete nos jornais , noticia de abertura nos telejornais e caso para CSI de bancada.
    Por enquanto, porque quando não houver dinheiro para a bica tv cabo ou porque o café da esquina fechou tal como muitos outros talvez ai, este povo burro e comodista, levante o cu da cadeira ao domingo e faça chuva ou faça sol vá votar.
    Não estamos actualmente a pagar mais do que o preço do nosso comodismo e preguiça cívica.

    Abraço MT.

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  8. Comentário cáustico mas pertinente MT, a coisa vai ficar mais preta ainda, disso não tenho dúvidas. Ainda assim aceita a opinião de um realista a quem chamam pessimista: Esta é uma oportunidade, é mais uma, mas é uma oportunidade para crescermos como povo, como gente. Nunca a informação nos chegou em tanta quantidade e forma, precisamos educar-nos e relação a ela, ter sentido critico, questioná-la, cruzá-la, ler nas entrelinhas e talvez aí, possamos ser realmente mais informados, mais cultos e mais responsáveis nas nossas decisões e opções.

    Nota: Já agora MT, não estou a ver quem sejas (é o problema das siglas), mas força, aparece e opina que isto é para todos ;)

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  9. Caro A,

    Belo poema, é teu? Tenho que ponderar um espaço cultural aqui no blog.

    Nota: Ontem nem tive coragem para te dizer nada, ouch, that must hurt.

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