Acordar cedo, bem cedo, ainda mais cedo que o costume porque o raio da hora de Inverno chegou para nos encurtar os dias, já de si pequenos. Desta vez concedo, não me parece que o Sócrates esteja metido nisto. Hoje não sonhei contigo, isso foi há dois dias, mas não seria mais apropriado apareceres hoje, que vou à Ajuda deixar-te flores? Esquece, tu apareces quando quiseres e quando te apetecer, era só o que faltava.
Hoje o cemitério estava apinhado, as bancas de flores também, é dia de Todos-os-Santos. Pelo que li, antecede o dia dos fiéis defuntos ou de “finados”, que seria o dia apropriado para deixar flores (como se o houvesse), mas as pessoas aproveitam o feriado e lá vão, um dia antes. Não te estou a ver como um fiel defunto ou um finado, que mais parece o nome de um frito de Natal, mas assim chamam aos dias e assim os dias são apresentados, “olá, eu sou o Finado, muito prazer”.
Escolhi duas rosas amarelas, porque as acho alegres (espero bem que gostes porque já não é a primeira vez que as escolho), uma minha, outra do teu irmão, que não gosta de ir ao cemitério. Terá as suas razões e até se entende, não será o único a quem lhe custa olhar para uma sepultura com o teu nome gravado (aí estamos todos de acordo), mas reage e sofre à sua maneira, como tu sabes. Eu, pelo contrário, vejo-me impelido a lá ir, não como o nosso pai, que abraça a pesada e honrosa missão diária de tratar da campa mais limpa e bonita do cemitério (se não é, parece), mas de quando em vez. Gosto do cemitério, aprecio a paz do local, o imenso céu que dali se avista, o sol, que ali é diferente, as flores verdadeiras e as de plástico, as cores que contrastam com o branco da mármore, os ciganos sentados junto das campas em bancos portáteis, as idosas a segredar baixinho aos seus defuntos, os gestos delicados e indecisos que compõe pela milésima vez pétalas e placas que dizem “saudade”.A rapariga que me vendeu as flores cortou-as pelo sítio que eu indiquei (e que veio a revelar-se demasiado curto para a profundidade do vaso, novamente) e surpreendeu-me ao cheirar as flores antes de mas entregar. Disse que cheiravam bem e deu-mas com um sorriso, muito simples e natural. Gostei daquele gesto, achei que mostrava simpatia e respeito por ti, pensei que deve ter calculado o quão bonito tu és, mas provavelmente foi só um gesto feminino e intuitivo perante duas rosas amarelas. Passo pela campa em que o C.F. “Os Belenenses” homenageia Pepe, Matateu e Artur José Pereira, fundador do clube, e viro à direita na Rua 14, cruzando-me com olhares que não olhando, são solidários, com gente que reconhece a dor e a saudade que nos vai na alma. Parece-me um óptimo sítio para se fazerem amizades.
Ali prostrado, perante a sepultura com o número 5.181, também eu hesito, demoro um pouco a decidir o que fazer e lá me lembro de compor as rosas o melhor que sei. “Tenho que mandar cortar só um bocadinho do caule, para a próxima”. Componho-me a mim próprio, emocionalmente, fico apatetado e ajeito algumas daquelas pedrinhas brancas que na tua campa proliferam sempre em boa quantidade. Suspeito, uma vez mais, que o nosso pai não vai olhar a meios para assim se manterem (tu sabes como ele é). Talvez reze, talvez chore, talvez não faça nada disso, não sei, sei que fico sempre surpreso por encontrar ali a tua fotografia e o teu nome entre dois idosos, que também deviam ser boas pessoas porque têm as campas bem cuidadas. Ouço boa e recente música nos phones e dói-me não ta poder impingir e disso ficar orgulhoso como aconteceu com os “Pink Floyd”, lembras-te? Acendo um cigarro e ajeito o vaso tombado da campa do senhor Eusébio (que não conheço mas fica ao lado), digo-te que vou almoçar aos teus pais, que eles estão bem e que lá nos encontraremos. Depois sinto-me ridículo ali a falar, a murmurar, sem saber que dizer, sem saber que murmurar e fico a olhar em volta. Sabias que há uma senhora que abraça e afaga uma sepultura ali próxima? Enternece-me ver pessoas que acreditam em algo muito maior que os montinhos de terra e pedrinhas brancas que ali estão, algo muito mais vivo que a laje que se limpa com um paninho húmido amarelo.
Demorei-me uns 10 ou 15 minutos, normalmente demoro-me pouco, não sei, parece-me pouco e muito ao mesmo tempo. Saio e passo pelos pedintes, legalizados e outros, sem levantar os olhos. Hoje não me apetece dar, mesmo que para boas causas, que é o que parecem ser sempre todas as causas. Já dou e mais darei para os subitamente humildes pedintes que nos governam e para a causa maior que dizem ser o país. O país todo meus caros…que tal isto para uma causa justa, ó minha senhora com a lata-mealheiro da Cáritas? Em casa dos meus pais como um excelente cozido-à-portuguesa. Estão eles, o meu irmão, cunhada e sobrinho, e ainda tenho tempo para jogar à bola com este miúdo que adoro e que com apenas 7 anos, já parece um craque. Venho para casa e penso que foi um bom feriado, que foi normal, não fora a sensação de que me esqueci de te dizer algo, precisamente quando ali estava sem saber que dizer, que murmurar. Que gostei da maneira como nos abraçámos no tal sonho de há dois dias, de como pensei que era um milagre tu estares ali, e que tenho pena de não me lembrar do que me disseste, antes de mais uma vez te ires embora, tão de repente.
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.", Miguel Sousa Tavares.
ResponderEliminarUm forte abraço. Conceição Vilela
Bonita maneira de ver as coisas. Sousa Tavares no seu melhor. Gostei bastante, obrigado.
ResponderEliminarSe tu soubesses a falta que nos fazes
ResponderEliminarSe apenas pudéssemos voltar atrás
Se a dor não viesse em ondas, por fases
Se conseguíssemos seguir em frente, em paz
Se tu aínda por cá estivesses
Se o mar não te tivesse reclamado
Se os céus me atendessem
Se a vida não fosse assim
Se...
Isto parece um verso teu, caro A, não? Os "ses" são de facto vidas alternativas. Muitas vezes, é com o que não vivemos ou não podemos evitar que temos enfim, de viver. Coragem, vamos em frente homenageando quem de direito.
ResponderEliminarÉ verdade, sou eu mesmo.
ResponderEliminarHoje vou pró gin (ginásio, atenção);) para espairecer!
Abraço
A
Já liguei, tenho que lá ir esta semana para pagar a inscrição e o mês. Vai já aquecendo esta semana que para a próxima temos competição...saudável, claro. É muito bom para a cabeça, assim se vença a inércia inicial.
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