23 de setembro de 2010

Ou comem a sopa ou chamo o FMI...

Ouvindo na Antena 1 José Mário Branco, achei graça à actualidade de uma canção/declamação bastante longa, e da qual deixo excerto. Intitula-se FMI, precisamente, o recente papão de Portugal, e prova que neste país, passados 31 anos, vira-o-disco e toca o mesmo:

FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu ‘attachi-case’ sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem ‘on the rocks’ do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico ‘hara-quiri’
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI …

(...) Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...(...)

José Mário Branco, 1979 (texto integral aqui)

4 comentários:

  1. LOL

    Estes tipos são os maiores. Gostei especialmente da referência ao Mortimore e Meirim, já nem me lembrava destes cromos da bola.

    Mais a sério, estou cada vez mais convencido que o FMI será mesmo uma questão de tempo (ahhh, saudosos anos 80). E aí sim, acaba-se a brincadeira e não vai ter graça nenhuma. Neste momento é bem mais do que um papão, parece-me.

    NL

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  2. Eu tambem me parece, meu caro, e na altura veio mesmo...A sondagem ali à direita tambem mostra a descrença das pessoas ;) Mas o texto está um espetáculo. Eu vou acresentar o link para o texto integral, para quem estiver interessado. O que eu acho incrivel é como passadas 3 décadas, estamos nisto outra vez...

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  3. Chamem-me pessimista, mas vem aí cacimba da grossa e já não falta muito...

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  4. Roubam-me a voz quando me calo
    E o Silêncio, mesmo se falo
    Quem cantarei?!

    Grande Zeca!
    Abraço
    A

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