7 de maio de 2010

Na Mesa de Cabeçeira

Um pouco perdido com a falta de nova leitura, vasculhei e encontrei uma edição antiga de um livro de uma autora que desconhecia. Surpreendentemente bem escrito, relata um período que parece situar-se no pós-2.ª Guerra Mundial e a viagem de vários emigrantes, que regressam do México à sua Alemanha natal num navio mercante chamado "Vera". Descobri que este mesmo livro foi mais tarde adaptado ao Cinema. Não tendo encontrado imagem do mesmo, deixo aqui a de um cartaz alusivo ao filme:

Katherine Anne Porter - A Nave dos Loucos

Não resisti a transcrever uma passagem (sim, dei-me a esse trabalho) que parece relatar, na visão de uma menina, o mistério que por vezes existe na relação entre um homem e uma mulher. Na realidade, acho que há algo aínda maior escondido nestas linhas, e por isso me chamaram a atenção, mas deixo à vossa interpretação:

"- Boa noite - respondeu Elsa. E acrescentou: Meu pai é de natureza alegre, adora divertir-se. Mas minha mãe não sabe rir, diz que só os tolos riem, que a vida não é coisa para a gente se rir…Lembro-me de uma vez quando era pequena…Lembro-me de tantas coisas! Mas dessa vez estava numa festa com meu pai e minha mãe – no campo, na Suíça, tinham o costume de levar às festas todas as crianças, mesmo os bebés de colo – e minha mãe não quis dançar a primeira dança com meu pai, e assim, naturalmente, ele não pôde dançar com mais ninguém. Então disse-lhe «Muito bem, deixa estar. Eu encontrei um par melhor que tu.» Arranjou uma vassoura e dançou com ela. E todos, menos minha mãe, acharam muita graça. Não quis falar mais com ele o resto da noite. Meu pai bebeu cerveja de mais e ficou muito alegre. E quando íamos de volta para casa, disse de repente a minha mãe: «Agora vais dançar.» E agarrou-a pela cintura e fê-la rodopiar, rodopiar, até que os pés dela já não tocavam no chão. E ela pôs-se a chorar. Não pude compreender minha mãe. Afinal de contas, não havia mal nenhum naquilo, era até bastante engraçado. Mas minha mãe chorou e eu chorei também. E meu pai acompanhava-nos muito calado, e hoje penso que tinha vontade de chorar."

Nota: Coincidentemente, apercebo-me que este "Ship of Fools" tem o mesmo titulo de uma canção dos eternos The Doors, mas agora não tenho tempo para Wikipédias, são 7:59 e tenho que ir trabalhar.

1 comentário:

  1. Este é um comment de teste. Caro Bouça, aínda não cobsegues comentar?

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