21 de setembro de 2011

Emigrar?

A palavra ouve-se cada vez mais nas ruas e cafés, entre amigos, conhecidos e estranhos. Tornou-se quase um desabafo, um quebra-gelo na paragem do autocarro, o tema do almoço com as noticias em pano-de-fundo: "Dá vontade é de emigrar, saír daqui para fora". Pelos vistos a palavra, tão mais fácil de dizer do que fazer, como sabemos, até está a acontecer, de forma crescente e diversificada. Também eu sinto a presença desta ideia, avalio-lhe os contornos, peso-lhe os prós e contras, considero o que faria se a oportunidade surgisse, mas em consciência, não a procuro activamente.

Face à questão, há uma dezena de "porque nãos", mas há, no minimo, um igual numero de obstáculos que se erguem. A familia, os amigos, os hábitos, o país enraízado, a estabilidade profissional (para quem a tem), etc...Por outro lado uma pessoa olha para o país e sente que a austeridade veio para ficar por muito tempo, sente que não tem emprego ou tem a carreira congelada, vê a qualidade de vida a fugir de mãos dadas com o poder de compra, sente a garra fiscal em todas as esquinas e vê-se rodeado de impostores que governam mal e sem qualquer responsabilização. O português deprime-se, muito antes de em último caso, passar fome.

Só por exemplo, hoje ouvi sobre o crescimento exponencial da emigração para o Brasil, mas estou certo que muitos vão para os mais diversos países sem qualificações, de mãos-a-abanar e sem contactos sérios que os auxiliem na integração. Calculo que muitos voltarão assim que alguém lhes pague o voo de volta. Também existe a emigração de gente qualificada e que até tinha um emprego em Portugal (voltando ao Brasil, pelo que sei,  só o processo de reconhecimento de qualificações e habilitações equiparadas, leva praticamente um ano ou mais) mas depois vem a desadaptação, o salário que afinal não é assim tanto num país a inflacionar, o patrão que nos trata como trabalhadores de 2.ª, a saudade das pessoas que afinal eram mais importantes do que pensávamos, etc...Mas também temos o reverso, a adaptação favorável ao país, vencer, crescer como pessoa, conhecer novas mentalidades, sociabilizar e até casar, constitur familia e pensar que aquela decisão foi a melhor coisa da nossa vida. Enfim, eu não sou pessoa de acreditar em "el dorados", talvez seja céptico, como já me chamaram, mas também não consigo pôr de lado uma carta do baralho que mesmo parecendo baixa, até se pode revelar como o trunfo que dá a vasa vencedora. Todos nós conheceremos pessoas que foram e voltaram, que ainda lá estão e não sabem se voltam, que querem voltar mas ainda lá estão e assim temos de tudo. Da minha parte penso nisso sim, mas talvez só uma hipótese real me fizesse realmente vacilar e perceber o que quero.

7 comentários:

  1. ...hipótese real e aliciante em relação à minha situação actual, esclareça-se. A outra hipótese, lagarto, lagarto, seria não ter hipótese, isto é, não ter nada de um momento para o outro. De resto, esta deverá ser a razão principal para a maior parte da emigração do mundo, não ter emprego nem perspectivas de algo minimamente digno no país onde se nasceu.

    FIL

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  2. Falando nisso, aconselho-te uma leitura: Maximum City, sobre a vida dos indianos em Bombaim (recuso-me a chamar-lhe Mumbai)...
    Abraço
    A

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  3. Acabei de ficar sem leitura, agora que acabei o "Miguel Street" do Naipaul. Por mim agradeço um livro novo para ler (mas antes desse que sugeriste, traz aquele de um americano que tinhas falado).

    Entretanto, enquanto não emigramos (o que faz lembrar o "bazamos ou ficamos?"), amanhã ténis no Jamor.

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  4. Uma opinião que nem sequer é minha. Creio que de um dos elementos dos gato fedorento.. Ouvi-a e gostei. " Somos um país do norte. Pagamos impostos como no norte da europa e temos um nivel de vida como o norte de áfrica". A emigração ( no contexto actual ) é como um penso rápido colocado sobre uma ferida demasiado grande. Já fomos um país de emigrantes e recentemente de imigrantes com e sem qualificação, todos com o mesmo problema e sonho, melhorar a sua vida, mas o problema a meu ver está na escravatura económica e esse polvo diabólico extende-se para além das fronteiras nacionais. O que podemos fazer é controlar ( eleger governos competentes que o façam , leia-se ) as acções dos seus tentáculos e isso faz-se com determinação responsabilidade e sentido cívico. Não tenho dados concretos mas pelo que sei no norte da europa os efeitos de esta crise global não são tão evidentes...

    MT

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  5. Concordo contigo, MT.
    Mas o problema em "eleger governos competentes" está quando não há elegíveis que cumpram esse critério e penso que uma das graves crises que Portugal atravessa, se não a mais grave, é mesmo essa.
    Abraço
    A

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  6. Sim, os elegiveis têm sido fracos, estou de acordo, e o maior problema é que os politicos europeus actualmente no poder, em especial de nações "locomotiva" como Alemanha, França e Reino Unido, são igualmente fracos. A resposta à crise da União Europeia sempre me pareceu fora de tempo, atabalhoada e pouco coesa.

    Passando isto para um cenário mundial, o problema agrava-se. Nos EUA, já se fala em nova crise e assim, estamos perante dois motores mundiais gripados e incapazes de catapultar os países emergentes, como China e India, que só podem exercer o seu potencial com a ajuda daqueles. O cenário económico mundial parece assim ,um ciclo vicioso, uma espiral de desconfiança que alguém tem que quebrar. Sugeria a imediata descoberta de petróleo no Beato ;)

    FIL

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  7. Colando a um dos temas em foco de hoje, segundo o Pinto da Costa já foi descoberto em Lisboa... o problema é que eu acho que foi prós lados da embaixada de Angola...
    Abraço
    A

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