16 de outubro de 2010

Mudar de tom

Ora bem, calculo que o pessoal aqui do burgo já esteja um pouco cansado de ver espelhada esta amargura que é o país politico e económico (o que me faz inferir isso é o facto de eu próprio já estar cansado de me ouvir/ler). Assim, passemos para algo positivo como algumas sugestões culturais:


- Mark Kozelek, o melancólico e profundo trovador, ex-Red House Painters, toca hoje em Sintra, onde de resto, espero estar presente. "On the day i was born, the rain came down...Ver aqui.

- José Saramago, num documentário intitulado "José e Pilar" estreado na Culturgest. Não sei se passará para o circuito comercial, mas desperta-me muita curiosidade.

- "Submundo", de Don DeLillo, o livro que o meu irmão me emprestou e que repousa actualmente na mesa-de-cabeceira. Um retrato da América muito bem escrito, so far (são 800 páginas, já agora).

6 comentários:

  1. Tu não mudas, caramba! Senão vejamos:
    Primeiro vaticinas que "o pessoal aqui do burgo já esteja um pouco cansado de ver espelhada esta amargura..." (já agora o pessoal de fora do burgo também partilha do sentimento)
    E depois mandas com três sugestões culturais supostamente para animar a malta. Ou como tu dizes "algo positivo".
    Uma é de um músico. Boa! Música pode animar. O que será? - perguntamos nós ansiosos. Um musical dos anos 50, alegre e colorido? Uma onda animada tipo Black Eyed Peas que põe a malta a dançar? Não! É um gajo que canta "On the day i was born, the rain came down..."
    Hummm... Ok... Começamos mal!

    Depois vem uma referência a um documentário de... um gajo morto. Tudo bem. Nada contra. Até podia ser um documentário sobre um morto e ser animado, se fosse por exemplo sobre o falecido Herman José, mas... o quê? Ele não morreu? A sério?!?! Bom... Ok, mas poderia ser um morto animado. Agora o Saramago? O gajo é bom e tal. Mas animado?? POSITIVO??? ELE???

    Ok. Mas agora temos ainda uma recomendação de um livro. Vamos embora! Um livro é coisa para relaxar e animar qualquer um. Principalmente se for um livro da nossa Ministra Isabel Alçada. Ela é divertida dentro e fora dos livros!
    Mas não! É um livro que se chama "Submundo"!!! E que fala da América?
    Nada contra as tuas sugestões. Serão todas muito boas. Mas positivas???

    Ora Filipe, queres uma sugestão? Volta a escrever do Sócrates que a malta sempre se diverte mais do que com essas tuas sugestões soturnas e tristonhas!

    Eu cá, de música fui ver a Dave Mathews Band no fim de semana passado. Coisa animada. E ainda por cima num festival de pendor gay numa fazenda do interior de São Paulo (e de animação entendem eles).
    E de livros acabei de ler o Freakonomics do Steven Levitt que surpreende a cada página.
    Vês? Isto é positivo! É assim que se cultiva positivismo!
    Curte a vida meu Amigo!

    Nuno Bouça

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  2. Eu curto, então não curto amigo!!! É claro que aqui o clima anda um bocado pesadote, é o Outono que regressa, é o Governo (esse longo Inverno que não passa nem por nada), é a promessa de um 2011 cheio de sacrifícios para os portugueses, enfim, tudo boas noticias...

    Dave Mathews deve meter respeito!!! O Kozelek, que de facto é um bocado melancólico demonstrou ser um artista de 1.ª linha, muitíssimo bom, o problema foi a organização do festival. Um homem que se apresenta em palco sozinho com uma guitarra clássica, sem rede, um verdadeiro trovador a tocar guitarra que dói, e que começa a ouvir som vindo da cave do Olga de Cadaval (onde decorria uma sessão paralela de música sei lá do quê), que pede durante o concerto que alguém por favor mude o sistema de luz do palco duas ou três vezes, até perceber que, pasme-se, ninguém estava a tratar das luzes (!?!), tem todo o direito de sair chateado no fim de um concerto em que demonstrou, não obstante tanta falta de respeito, um profissionalismo incrível. À atenção da Sintra Quórum! Este senhor, não me parece que lá volte tão cedo.

    De resto prometo fazer tudo ao meu alcance para me divertir (dispenso é esse pormenor da festa gay, com o devido respeito), prometo caramba, não me vão deitar abaixo!!!

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  3. Não estarás a ser demasiado benevolente e tolerante na tua avaliação? É matéria de opiniões, eu sei, mas...

    http://lilystrange.wordpress.com/2010/10/17/fofe-foge-bandido-mark-kozelek/

    http://quintadaspedras.wordpress.com/2010/10/17/the-words-we-shared-dissolved-as-theyre-spoken/

    Nuno Bouça

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  4. Obrigado pelo teu trabalho de investigação, foi útil. Sim, talvez ele estivesse um pouco deslocado ali, mas não tem culpa por quem alinhou os concertos, que metade de uma sala, como se diz, de miúdos com pinta de Bloco de Esquerda, saíssem porque não sabiam ao que iam e por acharem, sei lá, que aquilo não é groovy, nem português, e que depois de a banda anterior ter tido um set de luzes das mais variadas formas e feitios, o tipo responsável se tivesse ido simplesmente embora.

    O Kozelek tem um estilo e comportamento algo "dark", à Johnny Cash, é a cena dele, não a inventou quando aterrou na Portela, é assim há décadas...o que a organização do evento podia e devia pensar era, ou não o convidava, por achar que não se enquadrava no ambiente pretendido, ou convidando-o como veio a acontecer, proporcionar-lhe as condições minimas para receber um artista (e que passam por ter o homem das luzes que estava lá 10 m antes de ele pisar o palco, entre outras). De resto, o gajo era excelente, mau feitio ou bom, e foi pena o ambiente...

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  5. Esta parece-me uma crónica bem mais realista:

    "O avião da euforia aterra assim que alguém avista o rosto de Mark Kozelek em Sintra. Ali estava o senhor das mil conjugações da melancolia americana sozinho com uma guitarra; a voz que funciona como paisagem à parte; o guardião de um vasto cancioneiro, que melhora quando apreciado em profundidade; o homem facilmente confundível com um género que inventou praticamente sozinho a partir de canções lentas e discretas, que germinaram nas costas de um tempo muito mais atento ao fuzz acelerado das guitarras de Seattle. Mark Kozelek começou por ser uma cosa nostra e agora é uma cosa molto nostra.

    A lenda do songwriter geralmente perturbado em palco confirmou-se também num concerto em que Kozelek nunca deixou de desabafar divertidamente sobre os cochichos do público. Incomodado com a intensidade das luzes, Kozelek aproveita a certa altura o silêncio para solicitar uma opção que o fizesse parecer menos gordo (risos). A resposta tarda e o senhor dos discos cinzentos dirige depois algumas palavras ressabiadas ao técnico de iluminação acabando por dizer que este devia ser “atrasado mental”. Pede desculpa por isso no intervalo seguinte e não fala muito mais a partir daí.

    Todavia as canções não sofrem com esses percalços e soam tão cristalinas no Olga Cadaval como nos discos, além de que Mark Kozelek é um impecável executante da guitarra (na qual se escuta muitas vezes a influência ibérica). A noite termina com “Church of the Pines”, retirada do recente e muito presente Admiral Fell Promises, que é também uma excelente forma de explicar, em seis minutos, como Mark Kozelek continua a ser capaz de escrever arranjos superiores a favor de uma bonita canção (numa altura em que os Sun Kil Moon passam a ser só ele). Faltou, mesmo assim, aquela sintonia - impossível de ser forçada - que faz com que a memória de alguns concertos resista ao tempo e surja anos mais tarde em conversas de fervorosa nostalgia. Num país em que a adoração é mútua (o músico deu à sua própria label o nome do Caldo Verde), Mark Kozelek estava quase a jogar em casa e isso nunca foi tão constatável como se esperava no grande Auditório (talvez demasiado abatido com o anti-clímax pós-Foge Foge Bandido). Nada que tivesse impedido Kozelek de proporcionar aquele conforto que embala a criança no banco de trás do carro e que a leva depois em braços até à cama sem acordá-la. Voltar a viver essa sensação foi o que bastou.

    Miguel Arsénio
    migarsenio@yahoo.com

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  6. Olá,

    apanhado o link para o meu "desabafo" no Quinta das Pedras, a curiosidade empurrou-me para esta página e agora cai o comentário: as palavras que escrevi não são críticas para com as palavras ou atitudes do senhor Kozelek, mas sim à organização do Sintra Misty, que não percebeu a diferença monumental que existe, obviamente, entre os apaixonados por Manuel Cruz e o público do Mark Kozelek - cada um no seu canto, em eventos muito distantes, que a música, as "ambiências" e as ideias assim o exigem, tal como exigiam quando o americano tocou no Santiago Alquimista após aquela espécie de coisa musical portuguesa chamada Sean Riley (gente estúpida e estupidificante que até, imagine-se!, se dedicou a conversar animadamente e a bom som durante o concerto do Kozelek) -, e teve a magnífica ideia de começar a after-party (sublinhe-se a palavra «after») ainda a guitarra do americano tinia. Uma vergonha, digo eu, tempo perdido para ele e para quem o queria ouvir, uma desilusão. Ainda assim, quase cinquenta minutos mágicos. Que se repitam, mas não num qualquer Sintra Misty.
    Perdoem a invasão, e boa continuação.
    guilherme pires

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