Eu bem sei que andei de férias e ainda por cima em Marrocos e que por isso me desliguei bastante das noticias deste país, mas assim chegado e lendo na diagonal este encerramento do caso Freeport, dissipei de imediato as dúvidas, se as houvessem, relativamente ao aeroporto onde aterrei. Era mesmo o da Portela e é mesmo Portugal. Senão vejamos:1. Uma tal de Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, alegadamente (em Portugal tudo é alegado), com ligações ao PS, faz um acordo para evitar que José Sócrates seja ouvido pelos procuradores no Ministério Público;
2. Os procuradores Vítor Magalhães e Paes Faria, que por sua vez já tinham pedido a exclusão de Cândida Almeida por desconfiança na hierarquia, alegadamente (mais uma vez), embarcam no acordo, em troca da inclusão no relatório final das perguntas que queriam fazer a Sócrates e não fizeram por, repare-se, falta de tempo (!?!);
3. A Procuradoria Geral da República emite uma nota onde afirma que o Procurador Geral, Pinto Monteiro, o tal que assume ter os (nenhuns) poderes da Rainha de Inglaterra "nunca colocou qualquer limitação" à investigação do Freeport e assegura que "os magistrados titulares do processo procederam à investigação, com completa autonomia, inquirindo as pessoas que julgaram necessárias e realizaram todas as diligências que tiveram por oportunas", isto é, desautorizando os procuradores em causa e consubstanciando o melhor das tácticas de guerrilha interna de Maquiavel (a excelência seria simplesmente matá-los sob acusação de um qualquer outro crime hediondo);
4. Sócrates vem queixar-se de perseguição politica num processo que afinal não deu em nada e do qual sai inocente, o que é perfeitamente legitimo e até podia ser uma grande injustiça, não fosse a (in)justiça portuguesa uma absoluta vergonha que na prática, não nos permite saber quem são os inocentes e os culpados nem acreditar no que quer que seja.
Em suma, toda esta barafunda se resume a algo muito simples que não é mais do que a falta de autonomia e isenção do poder judicial, em especial dos seus nomeados, em relação ao poder politico. É isto, tão sómente. Nem sei quem tem razão ou se paga o justo pelo pecador, nunca saberei sequer, mas à mulher de César não basta ser...Se calhar em Marrocos é pior, admito, mas pelo menos não se finge que há isenção e verticalidade. Aqui é diferente, são todos uns senhores armados em impolutos e ofendidos, quando não passam de uma cambada de camaradas a viver num mundo ainda mais pequeno que Portugal e que enquanto debicam um croquete com mostarda no Gambrinus, catrapiscam a loura na festa de anos do afilhado, ou se engasgam com o Moët Chandon no barbecue da piscina, lá vão trocando umas piadas, impressões e favores, enquanto o diabo esfrega o protector solar (ou o olho, ó que raio é).
Acresento aqui um parentesis para dizer que eu tambem tenho amigos e que os defendo caso seja necessário e tal não colida com os valores que eu considero minimos para pessoas de bem, não sou anjinho. O que a mim me choca é o facto de uma qualquer Cândida Almeida ou fulano tal, exercendo um cargo tão importante e de tão elevados valores como é a justiça, não assumam apenas (internamente e em privado) que não poderão arbitrar determinado caso por sentirem conflitualidade de interesses. Isso é quanto basta, no meu ponto de vista.
Nota: Não se confundam no entanto, aqueles profissionais que lutam diáriamente pela dignidade da sua actividade, com aqueleoutros (normalmente seus superiores), que nem dignidade própria têm, quanto mais exercê-la no que quer que seja. Para carregar com a cruz das generalizações, está cá a função pública em geral e eu em particular...
Também eu me sinto envergonhado como português.
ResponderEliminarMas a pergunta a que eu não consigo responder é: Como deverei eu manifestar a minha indignidade e revolta de forma produtiva e consequente?
Sim, o voto, eu sei. Mas dá vontade de partir a loiça toda e fazer algo de realmente relevante.
Às vezes sinto-me tão impotente... (e por favor, não retires esta frase do contexto!)
Tio Bouça
"Como deverei eu manifestar a minha indignidade e revolta de forma produtiva e consequente?" Essa é a Million Dollar Question, de facto. Pergunto-me muitas vezes isso e acredita que por vezes até pondero se vale a pena escrever sobre estas coisas. O que adianta um misero post num blog sem expressão ou a minha anónima e humilde opinião?
ResponderEliminarVai daí e penso que "grão a grão enche a galinha o papo" ou para ser mais erudito que "uma grande caminhada se inicia com um simples passo" ou que...bom, acho que já ficaste com a ideia e pimba, toma lá um post! Fico então mais descansado e aliviado, desabafei, pronto...Talvez um dia isto chegue ao céu ou a quem de direito e digam "Porra, este gajo tem razão, vamos iniciar uma revolução!"
Nota: É claro que o mais normal será um amigo paciente com esta minha extravagância de me armar em blogger comentar algo do género "Tá bem pá, mas como deverei eu manifestar a minha indignidade e revolta de forma produtiva e consequente?" LoL
Talvez o mais saudável seja cada um tentar fazer a sua parte, por pequena que seja e por aí passe um mundo melhor! Eu só escrevi isto, mas pronto, é o que tenho para já...
E ainda mais importante...que tal o detalhe do "croquete com mostarda no Gambrinus"? Não marchava já com uma imperial bem tirada? Pagas tu, ok ;)
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